boletim de informação económica sobre a Índia
nº2; Junho/1999

Veja também o boletim nº 1, de Janeiro de 1999

Sumário
O investimento estrangeiro na Índia
O país hoje: situação política e económica
Informação estatística sobre Goa
Informação estatística sobre Maharashtra

Ficha técnica

Edição: CEsA - Centro de Estudos sobre África e do Desenvolvimento (ISEG/UTL)

Direcção: Prof. Doutor António M. de Almeida Serra

Redacção: António M. de Almeida Serra e Catarina Ferreira

Este boletim é editado no quadro do projecto de investigação Praxis/2/2.1/CSH/859/95
financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia

O investimento estrangeiro na Índia

 

O National Council of Applied Economic Research, com sede em Nova Deli, publicou recentemente os resultados de um seu projecto de investigação sobre o investimento directo estrangeiro (IDE) na Índia. Financiado pelo Banco Asiático de Desenvolvimento, deu origem a um texto com o o título Foreign Direct investment in India: problems & prospects. É deste documento que retiramos a maior parte da informação que se segue.

A maior parte da informação disponível no estudo citado diz respeito a pedidos, devidamente, aprovados, de investimento estrangeiro no país e não a investimentos efectivamente realizados. Apesar disso, cremos que vale a pena dar conta das principais conclusões do estudo.

Caracterizada, durante quase todo o período que medeia entre a sua independência (1947) e o final dos anos 80, por uma política económica que procurou dar corpo a uma filosofia de autosuficiência através da adopção de uma política industrial e de comércio internacional de substituição de importações --- apoiada, nomeadamente, pela forte intervenção do Estado na economia --, a estratégia de desenvolvimento da Índia sofreu uma modificação importante no início da década de 90 quando, em 1991, tomou posse o governo liderado pelo Primeiro-Ministro Rao.

Característica fundamental desta nova orientação foi a crescente abertura da economia do país ao comércio internacional e, como instrumento dela, a liberalização da economia --- incluindo a liberalização progressiva de vários sectores produtivos de modo a permitir o aumento do investimento directo estrangeiro no país. Este deixou assim de parente pobre --- paupérrimo, como demonstram as estatísticas... --- da política económica do país a uma situação que, não podendo ser considerada como de privilégio, é, no entanto de melhor receptividade sem que, no entanto, tenha passado a ser o "filho dilecto" que alguns gostariam que fosse.

Os números do IDE na Índia
Confirmando o que se disse acima sobre a evolução da importância relativa do IDE no país, as estatísticas sobre os investimento aprovados --- normalmente em muito maior número e valor que os efectivamente concretizados --- dizem-nos que, por exemplo, se no quinquênio de 1976-80 houve a aprovação de uma média anual de 329 projectos de IDE (investimento e importação de tecnologia estrangeiros) no valor (também médio anual) de 7,07 milhões de USD, nos dois quinquénios seguintes (1981-85 e 1986-90) os valores foram, respectivamente, de 683 projectos e 83,7 milhões de USD e 809 projectos e 118,6 milhões de USD. Os valores médios para cada contrato foram então, respectivamente, de 21,7, 122,5 e 146,6 mil USD, valores relativamente baixos e influenciados pela inclusão dos acordos quanto a transferência de tecnologia, usualmente de montante mais baixo do que os que envolvem investimentos em capital fixo.

Quanto aos anos seguintes --- ou, melhor, aos anos fiscais (Abril-Março) que começam no ano indicado ---, as estatísticas são:

Aprovações de colaborações económicas estrangeiras

ano

total de aprovações

(investimento +

transferência de tecnologia)

investimento

(% do total)

montante aprovado

(milhões de USD)

1976-80

1981-85

1986-90

 

1990

1991

1992

1993

1994

1995

1996

329

683

809

 

703

976

1520

1476

1854

2337

2104

12

20

29

 

29

31

48

53

58

58

67

7,1

83,7

118,6

 

71,2

216,6

1343,2

2824,4

4520,6

9587,4

10217,7

Quanto aos investimentos efectivamente realizados, os valores são aos seguintes:

Entradas brutas de IDE (milhões de USD)

1990

1991

1992

1993

1994

1995

106,86

153,45

362,95

650,81

1351,07

2175,55

Como se pode verificar, os investimentos efectuados estiveram sistematicamente muito abaixo das intenções. A propósito, o texto que vimos utilizando refere que "isto sugere que embora se assista a um aumento do interesse pela Índia enquanto destino de investimento, pode haver alguns obstáculos no caminho da efectiva implementação desses investimentos. Uma outra possibilidade é a da existência de um elevado time lag entre a aprovação e a efectivação dos investimentos".

Seja como for, a verificação daquele diferencial entre intenções e concretizações não retira validade à conclusão de que, de facto, desde o início da presente década se tem verificado um cada vez maior interesse pela Índia por parte dos investidores estrangeiros enquanto local de aplicações de longo prazo. Adiante veremos algumas das principais motivações deste fenómeno mas podemos acrescentar desde já que ele surge num quadro de crescente globalização da economia mundial e, naturalmente, de crescente adesão dos decisores indianos a esta lógica.

 
Origens e destinos do IDE

Neste ponto interessa-nos avaliar a situação do IDE na Índia segundo os países da sua origem e os sectores e Estados do seu destino.

Quanto à origem, por países, dos investimentos na Índia, as estatísticas demonstram que no período entre o 2º semestre de 1991 e o 1º semestre de 1997, foram os Estados Unidos os principais investidores no país, com cerca de 30% do total. Seguem-se-lhes o Reino Unido (6,9%), a Coreia do Sul (5,6%), as Ilhas Maurícias (5,5%), o Japão (4,6%) e a Alemanha (4,1%). O total da participação destes seis países é de 56,8%. Todos os restantes países têm, individualmente, participações inferiores a 3%.

De realçar são as posições (inesperadas?) da Coreia do Sul e das Ilhas Maurícias. Quanto à primeira, é interessante verificar que a sua percentagem naquele período oscilou, ainda que vários altos e baixos, entre os 0,2% do primeiro trimestre de 1993 e os 13,9% do primeiro trimestre de 1997, retratando um crescente envolvimento de empresas coreanas na economia indiana. Quanto à posição das Ilhas Maurícias, ela deve ser vista à luz do facto de se tratar de um "tax-haven" com forte presença de uma comunidade indiana muito activa e que serve também de canal de investimentos de muitos empresários indianos quer de outros países quer da própria Índia.

Outro aspecto com interesse é o da ligação países-Estados indianos quanto ao investimento directo estrangeiro. Assim, por exemplo, Os Estados Unidos, o principal investidor no país, aplica 13,8% dos seus investimento no Estado de Maharashtra e 10,3% no de Tamil Nadu, enquanto que o Reino Unido aposta de uma forma mais nítida no primeiro daqueles Estados (31,7% do seu IDE na Índia) e apenas 3,2% em Tamil Nadu. Bem mais importantes para os súbditos de Sua Majestade são os Estados de Uttar Pradesh (13,9%) e de Orissa (12,4%).

IDE aprovado em vários Estados segundo o país de origem (%)

(período: Agosto/91 -- Julho/97)

Alemanha

Coreia

do Sul

Reino

Unido

E U A

Total

Delhi

Maharashtra

Tamil Nadu

Karnataka

Madhya Pradesh

Bengala Ocidental

Orissa

Gujarat

Andhra Pradesh

Uttar Pradesh

Haryana

 
Desconhecido

7,4

12,2

2,4

18,7

0,9

1,3

11,7

9,2

1,6

2,5

3,6

 

26

22,8

2,9

0,7

0,9

27,9

2,0

0,0

0,4

2,7

9,7

0,8

 

28,1

4,1

31,7

3,2

4,3

5,0

1,4

12,4

0,6

4,1

13,9

0,8

 

12,5

6,7

13,8

10,3

1,6

4,5

8,4

6,2

3,0

1,9

1,0

1,9

 

39,2

16,1

12,6

5,4

5,2

4,9

4,9

4,2

3,7

2,6

2,3

1,7

 

33,7

IDE total do país

(biliões Rupias)

39,3

54,0

66,4

289,1

 

Os factores determinantes das escolhas efectuadas pelos investidores dos diversos países são diversificados mas a presença de infraestuturas razoáveis e a articulação entre cada Estado e determinados sectores produtivos são, certamente, alguns dos mais relevantes. Pelo contrário, parece que os incentivos concedidos pelos diferentes Estados, talvez por não serem muito diferentes de caso para caso, são um factor pouco determinante das escolhas.

Assim como há uma determinada concentração do investimento de certos países em determinados Estados, também existe alguma diferenciação quanto aos sectores em que cada um mais investe. Elemento comum parece ser o investimento nas telecomunicações, o mais importante para a maioria dos países, nomeadamente para aqueles que têm um menor valor global de investimentos. É o caso, por exemplo, de países como Israel e a Malásia, que aplicam 98,6% e 80,2% dos seus investimentos neste sector. Já os países com maior volume de investimento têm um menor grau de concentração sectorial deste. É o caso, por exemplo, dos Estados Unidos, com 37% dos seus investimentos no sector petrolífero, 14,1% nas telecomunicações e 11,9% no processamento de bens alimentares. O Reino Unido investiu principalmente no primeiro daqueles sectores (56,5%) e, ainda que em muito menor escala que neste, nos sectores químico (não-fertilizantes) (9,3%) e das telecomunicações (5,2%). A Coreia do Sul, por sua vez, investiu 30,8% no sector dos transportes (nomeadamente automóveis), 27,2% na petroquímica e 16,9% no equipamento eléctrico.

 

Podemos igualmente identificar quais são os sectores preferidos em cada Estado, independentemente do país de origem do investimento que requere aprovação. Por exemplo, o IDE realizado em Delhi concentra-se sobretudo no secotr das telecomunicações, com 61,9% do total. Já Maharashtra tem uma estrutura algo menos sectorialmente concentrada já que 37,2% do IDE se aplica no sector petrolífero mas as fábricas de produção de energia absorvem10,6% e a indústria dos transportes 13,8%.

IDE por sectores e por Estados (%)

sectores industriais

Delhi

Maharashtra

Tamil Nadu

Karnataka

TOTAL

Petróleos

Telecomunicações

Metalurgia

Equipamento eléctrico

Químicas

Produção de energia

Processamento de alimentos

Transportes

Hotéis e turismo

várias

Têxteis

3,9

61,9

3,9

3,9

0,0

7,9

1,9

8,7

5,4

0,3

0,1

37,2

2,0

2,5

4,8

8,9

10,6

2,2

13,8

2,7

1,3

1,6

33,1

10,0

0,4

3,5

3,4

18,6

8,8

4,9

1,0

1,3

1,3

23,7

6,0

21,4

10,2

5,9

4,2

1,4

5,2

0,2

5,7

3,1

27,7

22,6

6,6

6,2

6,2

6,0

6,0

5,1

2,2

 

1,4

 

Esta perspectiva Estadual da distribuição dos investimentos directos estrangeiros já deixa antever quais são, a nível nacional, os sectores usualmente preferidos por estes. Assim, 50% das aprovações dizem respeito a investimento nos sectores infraestruturais (petroquímica e telecomunicações). Em segundo lugar vêm os investimentos em bens de capital como a maquinaria, a produção de energia, o equipamento eléctrico, etc (20%). Os "outros", que incluem sectores tão variados como a habitação e escritórios, o equipamento médico e cirúrgico, o sector dos serviços e os hotéis e turismo (além de outros subsectores), absorvem 15% do IDE.
As estatísticas que ficam acima dão uma ideia do que tem sido o investimento directo estrangeiro na Índia desde o início da presente década. É altura de abordarmos o tema numa outra perspectiva: a dos investidores e das determinantes da sua decisão de investir no país.

 

Os investidores e os factores determinantes do investimento

Como é que os investidores estrangeiros classificam a Índia quanto aos factores cruciais para as suas decisões de investimento no país? O estudo que temos vindo a utilizar procura igualmente, para além da análise quantitativa do IDE, compreender o comportamento dos investidores.

Como classifica o comportamento da Índia em relação aos seguintes factores?

não

respondem

muito pobre

pobre

suficiente

bom

excelente

taxas de juro satisfatórias

facilidade de fim da actividade

bom ambiente sócio-político

políticas estáveis

estrutura fiscal favorável

flutuações dos câmbios

economia liberalizada

adequação da legislação comercial

transparência do quadro regulamentar

regulamentos vários (ambiente, trabalho, etc)

5,4

19,4

5,4

3,2

6,5

7,5

3,3

4,3

6,5

7,5

19,4

26,9

3,2

3,2

8,6

4,3

5,4

1,1

11,8

11,8

40,9

26,9

33,3

25,8

23,7

16,1

23,7

19,4

41,9

44,1

29,0

22,6

40,9

48,4

39,8

47,3

51,6

34,4

28,0

30,1

5,4

4,3

16,1

18,3

20,4

23,7

14,0

35,5

9,7

6,5

0,0

0,0

1,1

1,1

1,1

1,1

2,2

5,4

2,2

0,0

 
Do quadro antecedente depreende-se que, de uma forma geral, os investidores consideram a Índia como um país com condições "suficientes" a "pobres" para o investimento mas reconhecem que em alguns items tais condições chegam a ser relativamente "boas". Realce-se, em particular, que os empresários consideram que há ainda muito a fazer para que o quadro legal do país e o ambiente em que ele é aplicado sejam considerados como verdadeiramente propícios. Note-se, porém, que isto não foi impedimento a instalação das empresas respondentes --- uma amostra de 100 empresas estrangeiras em actividade no país inquiridas pela firma Arthur Andersen & Co. Não constando que tais empresas se preparem para sair do mercado indiano, aqueles elementos devem acima de tudo ser considerados como alertas importantes aos candidatos a empresários no país e, eventualmente, como uma sugestão para a associação com empresários, nomeadamente indianos --- de preferência bem colocados na hierarquia social e/ou política... ---, que conheçam razoavelmente bem o "como fazer negócios com a Índia". Avançar para uma actividade no país sem um forte apoio local não parece o mais aconselhável.

O retrato ("a la minuta") que fica atrás não está completo, havendo muitos mais items a tomar em consideração numa decisão de investimento no país. Algumas delas passam pela percepção sobre os seguintes elementos:

Como classifica o comportamento da Índia em relação aos seguintes factores?

não

respondem

muito

pobre

pobre

suficiente

bom

excelente

presença de firma colaboradora competente

disponibilidade de mão de obra qualificada

tamanho actual do mercado

dimensão futura do mercado

tratamento igual das firmas nacionais e estrangeiras

preocupações quanto a segurança e crime

práticas não-éticas dos níveis inferiores da administração

idem, camadas superiores

17,2

9,7

8,6

8,6

8,6

7,6

11,8

10,8

3,2

0,0

1,1

0,0

10,8

4,3

35,5

24,7

15,1

8,6

12,9

2,2

25,8

18,3

25,8

26,9

33,3

30,1

33,3

17,2

36,6

40,9

19,4

25,8

24,7

37,6

31,2

41,9

15,1

24,7

6,5

11,8

6,5

14,0

1,9

30,1

3,2

4,3

1,1

0,0

 
No quadro anterior é especialmente de realçar as respostas em relação à dimensão actual e futura do mercado. Com uma população actual de quase um bilião de habitantes --- ainda que com um rendimento per capita relativamente baixo (USD 380 em 1996) --, não admira que os empresários tenham perspectivas "suficientes" ou mesmo "boas" sobre ambos os items; de sublinhar são ainda os 30,1% de empresários que responderam que as suas perspectivas quanto à dimensão futura do mercado são "excelentes" (único item com uma percentagem tão grande a este nível).
Estas respostas, conjuntamente com as já referidas acima e com muitas outras que constam do estudo mas que aqui não abordamos, estabelecem o pano de fundo para que, numa comparação entre a Índia e outras economias emergentes --- quais, é assunto não esclarecido, pelo que a resposta peca pela imprecisão da pergunta --- (o inquérito foi realizado antes da actual crise das economias da Ásia Oriental e da América Latina, particularmente do Brasil), haja 37,6% dos respondentes a considerarem que o país é pior e que 23,4% considerem que é igual. Só 11,8% consideram que é melhor, não havendo ninguém que o considere "muito melhor". Em contrapartida, há 12,9% que o consideram muito pior (14% não respondem).

Os empresários foram também questionados sobre o sistema fiscal do país. Neste domínio, 37,6% consideram o país como "suficiente" em relação ao imposto sobre o rendimento mas apenas 29% o respondem da mesma forma quanto ao imposto de comercialização (sales tax), a mesma percentagem que classificaram a situação relativamente a esta última como "pobre".

O sistema financeiro, particularmente quanto ao acesso a instituições deste tipo, é genericamente considerado como "suficiente" (32,6% das respostas) ou "bom" (23,7%).

Por fim, refiram-se alguns dos vários factores que afectam a decisão de investir no país. Os quinze primeiros de uma lista de 32 são os seguintes (o motivo principal aparece com o índice 100 e os restantes como uma percentagem deste):

 

dimensão futura do mercado

comunicações, em geral

políticas estáveis

pessoal qualificado

disponibilidade de mão-de-obra qualificada

efectivo cumprimento dos contratos

práticas pouco éticas dos níveis superiores da Administração *

tratamento igual das empresas nacionais e estrangeiras

dimensão actual do mercado

transparência do quadro regulamentar da actividade económica

energia

práticas pouco éticas dos níveis inferiores da Administração *

importação de inputs necessários ao investimento

sistema geral de transportes

bom ambiente sócio-político

100,00

88,50

88,06

86,56

85,09

83,90

80,65

80,06

79,82

78,61

76,91

72,99

71,54

70,36

70,19

* note-se que estes items, ao contrário dos demais, devem ser lidos como gerando uma influência negativa

 

Com este quadro completa-se a apresentação que fizemos de um dos mais recentes estudos sobre o investimento directo estrangeiro na Índia e sobre as condições que ele defronta. O objectivo foi o de transmitir um conjunto de informações que podem (esperemos que o sejam) úteis no momento da tomada de decisão de investir no país. Delas resulta, quanto a nós, uma lição fundamental: qualquer aproximação ao mercado indiano terá de ser levada a cabo com o máximo de cautelas, de preferência em associação com um parceiro local que tenha dado garantias de efectiva capacidade para fazer face aos vários escolhos que necessariamente se apresentarão pela frente aos mais diversos níveis e pelos mais diversos motivos --- o menor dos quais não será, certamente, as práticas "não-éticas" de alguns...

Esta nota, só aparentemente pessimista, não deve fazer esquecer uma outra resposta que os inquiridos também nos dão: a certeza de que, desde que se tenha consciência dos riscos inerentes ao investimento em tais condições --- afinal não são tão diferentes quanto isso de outros investimentos em outros espaços não desenvolvidos --- a "dimensão futura do mercado" é um aliciante (mais do que suficiente?) para o início da actividade económica naquele país.

 

 

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O país hoje

 
Situação política

Como se esperava, os resultados das eleições realizadas no início do ano em alguns dos principais estados da Índia --- uma vitória relativa do Partido do Congresso e uma derrota do principal partido (o BJP) da coligação que governa o país --- vieram a influenciar decisivamente a evolução da situação política. A morte do governo central era, a partir de então, uma questão de tempo.

Havia, desde então, a impressão de que assim que o principal partido da oposição (o Partido do Congresso, liderado por Sónia Gandhi) decidisse tomar o poder, encontraria um mecanismo apropriado para o fazer. Tal não veio a ser necessário porque a coligação que suportava o governo central desfez-se... por implosão. Mas parece evidente que nesta teve um papel central uma das características fundamentais da vida política da maior democracia do mundo: a mudança de campo de alguns líderes políticos (e seus partidos) em função das suas perspectivas de ganhos pessoais com a mudança do governo.

Resultado: o actual governo perdeu uma moção de confiança apresentada no Parlamento e, naturalmente, demitiu-se.

Convidada a formar novo governo, Sónia Gandhi esforçou-se por o conseguir sem que fosse necessário recorrer --- pelo menos para já --- a novas eleições gerais. A verdade, porém, é que não alcançou o seu objectivo e por isso o país irá a votos em Setembro, depois da época das chuvas das monções de Verão.

Questão que se pode colocar é a de saber se o Partido do Congresso se empenhou o suficiente para evitar eleições. Cremos que não, já que acreditamos que estas lhes serão favoráveis. Que outra leitura poderá ter a condição imposta por Sónia de que os partidos que apoiassem o seu governo não teriam direito a qualquer cargo no mesmo? Num sistema político como o da Índia impor tal condição era, à partida, condenar ao fracasso as negociações para constituição de um novo governo. Foi o que aconteceu.

Entretanto, deu-se uma fracção no Partido do Congresso com vários deputados actuais a abandoná-lo argumentando com a sua discordância em relação ao facto de Sónia, italiana por nascimento, ser candidata a Primeiro-Ministro.

A julgar pelos recentes resultados das eleições em Goa, onde o Partido do Congresso ganhou a maioria absoluta --- que não tinha anteriormente --, tal factor não irá abalar as perspectivas eleitorais do Partido mas a verdade é que, sendo alguns dos dissidentes verdadeiros "pesos pesados" da política indiana, só à boca das urnas, em Setembro, se saberá o verdadeiro impacto desta fractura no partido.

 

Situação económica

Análise global

As esperanças que alguns analistas puseram na dinamização da economia indiana no quadro da aplicação do orçamento de estado para 1999-2000 esfumarem-se com a crise política que condenou o governo.

Assim, o abrandamento da taxa de crescimento que se tinha registado em 1997 relativamente ao período 1992/96 --- de uma média de 6,4%/ano passou-se para 5% --- terá sido confirmado em 1998 --- apesar de o governo estimar em 5,8% a taxa de crescimento daquele ano (ou melhor, do período Abr/98-Mar/99, já que é este que corresponde ao ano fiscal, base de cálculo da variação dos agregados macroeconómicos).

As previsões apontam para uma taxa de crescimento do PIB de 3% em 1999 --- um abrandamento importante em relação aos últimos anos a que não é estranha a situação política interna e o impacto da crise da Ásia Oriental ---, com provável recuperação para os 5% no próximo ano.

Produção

As últimas informações sobre a taxa de crescimento do produto industrial apontam para um valor de 2,5% em Março deste ano em relação ao mesmo mês do ano anterior.

Comércio internacional

Os dados disponíveis apontam para um crescimento de 10,5% das exportações quando medidas em rupias. Porém, se utilizarmos como base de cálculo o seu valor em USD, concluímos que se verificou uma quebra de -2,9%. Esta diferença de comportamento resulta do processo de desvalorização da rupia que se tem desenvolvido desde o início da crise asiática.

Quanto às importações, os valores são, respectivamente, 16,4% (em rupias) e 2,3% (em USD).

Resultado deste diferente ritmo de crescimento, o saldo negativo da balança comercial quamentou no ano 1998-99 quase 40% (em USD) em relação a 1997-98 (de -6,4 biliões de USD passou a -8,1 biliões).

A balança de transacções correntes, por sua vez, passou de um saldo negativo de 1,7% do PIB em 1997 para um de 2,4% em 1998.

Inflação

O índice do custo de vida para os trabalhadores industriais cresceu 8,6% nos últimos 12 meses, tendo diminuído (-1,2%) no último mês de que há informação (Março). Entre março de 1998 e Março deste ano a variação foi de +8,9%.

Note-se, porém, que os preços por grosso dos produtos alimentares cresceram de uma forma significativamente mais rápida que os restantes: 10,6% contra 4,6% do conjunto das mercadorias e 0,1% dos produtos manufacturados em geral.

Se medidos de Dezembro a Dezembro, os preços dos bens de consumo terão aumentado cerca de 15,3%, mais 9 pontos percentuais do que no ano anterior. Este facto não deixou, certamente, de pesar na orientação do voto nas eleições do início do ano na Índia e que, por sua vez e como salientámos, estiveram na base da queda do governo ainda em funções de gestão.

Moeda

A taxa de crescimento da M3 no ano terminado no início de Março foi de 18,6%, alguns pontos percentuais acima da taxa de inflação mas não muito longe do somatório desta com a taxa de crescimento do produto.

Taxa de juro

A prime rate da maior parte das principais instituições bancárias é de cerca de 12-13%. A taxa de juro de curto prazo no mercado interbancário é de 8,37%

Câmbios

A taxa de câmbio está agora nos INR 43,0/USD mas há estimativas de que atingirá os 48,00/USD até ao final do ano. Há um ano era de 41,4/USD, pelo que a desvalorização ocorrida desde então foi de cerca de 4%

Reservas cambiais

Os últimos números divulgados relatavam a existência (em fins de Março passado) de reservas no valor de 30,2 biliões de USD, quase mais 4 biliões do que no ano anterior.

 


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Informações sobre o Estado de Goa

(Fonte principal: State of Goa - Indicators of Socio-Economic Development: 1998, Directorate of Planning, Statistics and Evaluation, Government of Goa, Panaji, 1999)

População Total: 1,2 milhões de habitantes
Área: 3 702 km2

Clima:
i) Chuva (mm/ano) em Panaji [Pangim]: 3369 (1997)
ii) nº de dias com > 2,5 mm/dia: 94 (1997)
iii) dia com mais chuva: 30/06/97 (175,7 mm) (época das chuvas: Junho-Setembro)
iv) Temperatura máxima e mínima (Pangim): 31,5 e 23,5

Densidade Populacional: 316 hab/km2 [Índia: 274]
População urbana: 41% do total [Índia: 25,7%]
População activa: 33% do total (567 mil); na agricultura: 24% da activa total; % de mulheres: 16,8%

Indústria -- nº de fábricas em operação: 476; nº de trabalhadores nas fábricas em operação: 34 mil;
nº de unidades de pequena dimensão registadas no Departamento de Indústria: 5 488;
nº de trabalhadores nas unidades de pequena dimensão: 37 mil

Exportações de minérios:
i) ferro: 18 442 tons
ii) manganésio: 218 tons
iii) ferro-manganésio: 368 tons

Consumo de electricidade:
i) Total: 1 039 600 kwh
ii) Consumo de electricidade per capita: 889 kwh
iii) Consumo de electricidade pela indústria: 542 000 kwh
iv) Consumo de electricidade pela indústria per capita: 463 kwh
v) Consumo de electricidade doméstico: 208 kwh

Estradas -- comprimento total, incluindo estradas rurais: 7 543 km
Número de telefones: 96 748

Saúde -- Hospitais públicos: 30 (2 827 camas); Hospitais privados: 92 (1 806 camas); População por cama de hospital: 281/habitantes; Taxa de natalidade (nascimentos por 1000 hab): 17,97 [India: 29,3]; v) Taxa de mortalidade infantil: 13,12 / 1000 nados vivos [India: 80 (1991)]

Produto per capita preços correntes: 19 719 rupias
Rendimento per capita preços constantes de 1980-81: 6 227 rupias

Principais religiões (% população, censo de 1991) -- Hindus: 64,7%; Cristãos: 30%; Muçulmanos: 5,3%

População alfabetizada (> 7anos, censo de 1991): 75,5% (Índia: 52,5%; Maharashtra: 64,9%)

Índice de preços no consumidor para trabalhadores industriais em Goa, 1996 (1982=100):
Jan/96: 349; Dez/96: 394; [média 1996: 373]
Preço médio de alguns produtos em Goa, 1996 (rupias): arroz: 6,85; carne de vaca: 29,06; ovos (dúzia): 17,10; peixe fresco: 25,18; batata (kg): 9,09; cebola: 6,30; electricidade (kwh): 0,65

Nº veículos e motos em actividade em 31/03/97: 323 313 (dos quais motociclos e scooters: 165 525; carros privados e jeeps: 31 947; camiões de carga: 17 645)

Turismo (1996-97): Hotéis: 436 [dos quais Norte de Goa: 286; Sul de Goa: 150]; Camas: 18 391
turistas nacionais: 900 mil [dos quais Norte de Goa: 587 mil; Sul de Goa: 313 mil];
turistas estrangeiros: 246 mil [dos quais Norte de Goa: 68,7 mil; Sul de Goa: 177,4 mil (Salcete: 165,8)]

Produto Interno Líquido do Estado de Goa a Custo de Factores
por Indústria de Origem (milhões de Rupias)

Nº. Série | Grupo

preços correntes

1995-96 (P)

preços correntes

1996-97 (E)

preços constantes

de 1980-81

1995-96 (P)

preços constantes

de 1980-81

1996-97 (E)

1

Agricultura, Florestas e Pescas

1.1

Agricultura

2209,2

2696,5

680,9

743,9

1.2

Florestas e Madeiras

174,7

207,2

22,0

25,9

1.3

Pescas

686,4

758,4

200,4

217,6

2

Exploração Mineira e Pedreira

1713,8

1534,2

153,1

142,4

Sub-Total (Primário)

4784,1

5196,3

1056,4

1129,8

3

Manufactureira/Transformadora

5133,7

5200,0

2637,4

2652,6

3.1

Registada

4695,3

4695,3

2481,5

2481,5

3.2

Não Registada

438,4

505,3

155,9

171,1

4

Electricidade, Gás e Água

63,6

146,0

-5,6

10,6

5

Construção

1907,2

2033,8

260,5

269,9

Sub-Total (Secundário)

7104,5

7380,4

2892,3

2933,1

6

Comércio, Hotéis e Restaurantes

3645,3

3648,2

902,6

915,7

7

Transportes, Armazenamento e Comunicações

2792,1

2979,1

1248,6

1307,7

7.1

Caminho de Ferro

30,5

30,5

3,8

3,8

7.2

Outros Transportes

2642,6

2828,4

1178,4

1237,3

7.3

Armazenamento

5,4

6,6

1,4

1,6

7.4

Comunicações

113,6

113,6

65,0

65,0

Sub-Total (6 e 7)

6437,4

6627,3

2151,2

2223,4

8

Finanças, Seguros, Imobiliário e Serviços Empresariais

2723,9

2777,1

902,0

912,3

8.1

Banca e Seguros

2055,2

2055,2

596,2

596,2

8.2

Imobiliário, Propriedade de Habitações e Serviços Empresariais

668,7

721,9

305,8

316,1

9

Serviços Comunitários, Sociais e Pessoais

3237,8

3757,8

829,4

929,8

9.1

Administração Pública

1266,0

1459,5

324,6

357,8

9.2

Outros Serviços

1971,8

2298,3

504,8

572,0

Sub-Total (Terciário)

12399,1

13162,2

3882,6

4065,5

10

Produto Interno Líquido

24287,7

25738,9

7831,3

8128,4

11

População (milhares)

1279,4

1305,3

1279,4

1305,3

12

PIL per capita (rupias)

18984

19719

6121

6227

Notas: E - Estimativas; P: Provisório

Fonte: Statistical Handbook of Goa: 1994-95 to 1996-97, Directorate of Planning, Statistics and Evaluation, Government of Goa, Panaji, 1999, pp.153-154

Exportação/Importação de mercadorias, através de Margão, 1996-97 (tons):

Exportações

Importações

minério de ferro

14.210.168

Ácido fosfórico

201.764

pepitas de ferro em bruto

424.795

Carvão

460.068

manganês ferroso

176.976

alumínio

157.726

melaço (açúcar)

225.238

Principais países de origem das Importações: Bahrain, China, Kuwait e Marrocos
Principais países de destino das Exportações: Japão, China, Itália, Holanda, França

Défice das contas públicas (1996-97) (estimativa do orçamento): 95,836 milhões de rupias

Índice de produção mineira em 1995-96 (1980-81=100): i) bauxite: 219; ii) ferro: 105; iii) geral: 103

Produção industrial: 84,7% do PIB total do Estado; Produção mineira: 15,3%

 
Peso de cada sector industrial na produção da indústria e seus índices de produção (1995-96):

Código

Sector Industrial

Peso

Índices de Produção Industrial(1980-81=100)

20-21

Manufactura de produtos alimentares

3,90%

197

22

Manufactura de bebidas, tabaco e similares

2,00%

569

23

Têxteis de algodão

1,00%

86

25

Manufactura de juta e similares

0,01%

5355

26

Manufactura de produtos têxteis

0,80%

1822

27

Manufactura de madeira e afins

0,05%

22

28

Manufactura de papel e afins

0,80%

702

30

Manufactura de produtos químicos

41,00%

468

31

Manufactura de borracha, plásticos, derivados de petróleo e carvão

42,50%

261

32

Manufactura de metais não ferrosos

0,30%

341

34

Manufactura de produtos metálicos e suas partes

0,10%

405

35-36

Manufactura de máquinas e equipamentos (excepto de transporte)

0,40%

283

37

Manufactura de equipamentos de transporte

6,00%

476

38

Outras manufacturas

1,10%

230

Total

376

 

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Informações sobre o Estado de Maharashtra

Salvo indicação em contrário, as informações estatísticas que se seguem são referentes a 1996-97. A fonte de informação utilizada foi o website oficial do Estado de Maharashtra (http://www.maharashtra.gov.in/english/mstate/)

 

Área geográfica: 308 mil kms2 (9,4% da Índia)

População (1/3/1997): 87,8 milhões de habitantes (9,3% da Índia)

Percentagem da população residente em zonas urbanas: 41% (25,7% para o total da Índia)

Densidade populacional: 286/km2

Taxa de alfabetização: 65% (Índia: 52%)

Rendimento global a preços correntes: 1 521 290 biliões de rupias (15,1% do total da Índia)

Rendimento do sector primário: 324 440 biliões de rupias (21,3% do rendimento global)

idem, sector secundário: 509 290 (33,5%)

idem, terciário: 687 560 (45,2%)

PIB per capita a preços correntes: 19 207 rupias (cerca de 86 contos) (média da Índia: 12 278)

Número de fábricas: 27668 (todas as dimensões)

Emprego industrial (média/dia): 1,28 milhões

Electricidade (milhões de Kwh):

produção: 54 037; consumo: 47 092; consumo industrial: 18 119; consumo doméstico: 8 349

Camas de hospital por 100 mil habitantes: 143

Taxa de natalidade: 232 por mil; taxa de mortalidade: 74 por mil

Taxa de mortalidade infantil: 48 por mil nados-vivos

 

NOTA: em muitas estatísticas da Índia os valores são apresentados em 'crores' e em 'laks'. Um 'crore' equivale a 10 milhões de unidades e um 'lakh' a 100 mil unidades; um 'crore' é igual a 100 'lakhs'.

 


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Autor: António M. de Almeida Serra; aserra@iseg.utl.pt

Copyright © CEsA, 1999

Última versão: 17 de Junho de 1999